13 de janeiro de 2011

Por que escritores colecionam tantos livros?


O jornal El Pais (portal Babelia) fez uma pesquisa junto a vários escritores para tentar entender o apego que eles têm com os livros. Não somente aos seus livros (publicados por suas editoras), mas pelas coleções, às vezes com milhares de obras que entulham suas paredes, vergam suas estantes, entopem cada canto da casa formando um labirinto de títulos e autores. As respostas variaram de autor para autor, mas de certa forma elas refletem o amor pelo livro, por “ter” o livro fisicamente, pelo ato de colecionar as obras, de guardá-las, de cultuá-las.

“Tenho uma relação alimentar com meus livros”, diz o escritor chileno Rafael Gumucio, autor de La Deuda (2009). “Quero devorá-los, consumi-los e logo, como um frango assado que esfria na mesa, os abandono, negligencio, deixo-os ir”, completa. Martín Kohan, autor de Ciências Morais (2005), e Revista Cuadernos De Recienvenido 20/2007 (2010), entre outras obras, revela menos apego. Para ele “manter os livros é como preservar as pegadas das nossas leituras”. Kohan não tem pelos livros de sua biblioteca particular nenhuma veneração ou fetiche. “Eu os tenho para poder voltar ao meu trabalho”, explica.

O mesmo acontece com Héctor Abad Faciolince, autor de El Olvido Que Seremos (2010), com uma biblioteca de quase 7 mil volumes: “Tenho os livros como tesouros, mas paradoxalmente não estou apegado a eles. Não os maltrato, mas não me importa muito perder algum deles. Tenho com eles uma relação íntima, mas não são meus parentes, são amigos”. Já Daniel Samper Pizano, colombiano e autor Impávido Colosso (2006), com mais de 10 mil títulos em sua biblioteca, é tão ganancioso no empréstimo, como honesto no retorno. Sua coleção tem a primeira edição de “Cem Anos de Solidão”, com dedicatória do próprio García Márquez. Samper estabelece uma sútil comparação: “Se você tivesse investido em imóveis o que eu gastei em livros poderia ter uma cobertura em Manhattan … mas ela seria inútil sem os livros”.

Afeto pelos livros também podemos encontrar no escritor argentino Rodrigo Fresán, autor de Jardins De Kensington (2007), que foi logo declarando sua paixão pelos empoeirados livros de sua coleção. “Estamos muito felizes juntos, e em crescimento. Na saúde e na doença, até que a morte nos separe”, diz Fresán. Já o peruano Santiago Roncagliolo (A Quarta Espada) é generoso e menos apegado: “Me mudei várias vezes, e em cada uma delas tenho dado meus livros. Sempre acredito que minha vida deveria pesar menos de 32 quilos, que é a bagagem que levo do Peru para Espanha. Todo o resto é desnecessário e nos mantém amarrados ao passado”.

Mas o argentino Alan Pauls (História Do Pranto) revela na pesquisa toda sua dependência do “vício” de manter livros: “Eu tenho com eles uma relação de necessidade (não consigo ficar longe deles), de culto religioso (acredito na superioridade do livro), de cumplicidade (confio mais nos livros do que na maioria das pessoas, das artes e das tecnologias). Minha biblioteca não é espetacular, não tem nenhuma suntuosidade, nem mesmo o brilho de um bem capital. Mas ela é a minha comunidade: lá estão meus interlocutores mais amigos e mais radicais, nela estão os que me apóiam, me defendem, me educam, me seduzem, me inspiram, me melhoram”.

O apego aos livros não é diferentes conosco, leais leitores de alguns desses autores. Temos uma relação sempre apaixonada com nossos livros, com nossas estantes, com nossos cantos cobertos de obras passadas, lidas, empoeiradas, folheadas e admiradas como se fossem nosso tesouro. Passar a mão e escolher um de nossos livros é como reler nossa própria vida, como se a tivéssemos vivido junto com os personagens daquela história, parece que somos íntimos e que nunca vamos nos separar. Quando perguntaram ao escritor espanhol Eduardo Mendoza (A Assombrosa viagem de Pompônio Flato) qual livro de sua biblioteca escolheria para levar a uma ilha deserta, sua resposta mostra essa patológica relação: “Prefiro me afogar no naufrágio”.


Fonte: Blog da Cultura

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