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Mudaram o gênero de entrada e saída



Todos os dias, vou ao Terminal Parque D. Pedro II para pegar o meu ônibus e me dirigir ao trabalho. Hoje, ao ler uma advertência no terminal, descobri que as palavras “entrada” e “saída” são masculinas. Vejam o que eu li:

Proibido a entrada e saida de pedestre

Com essa frase, é possível dar uma aula sobre o uso do verbo no particípio.

Para quem não sabe, os verbos no particípio, que é uma forma nominal, se apresentam como adjetivos em uma oração, devendo concordar em gênero e número com o sujeito. Com a frase acima na ordem direta (sujeito-verbo-complemento), fica nítido o erro de concordância:

A entrada e saída é proibido

A palavra “proibido” é o verbo “proibir” no particípio, devendo concordar com o sujeito composto “A entrada e saída” que já estão no feminino, variando também em número. Vejam como ficaria a oração com o verbo escrito corretamente:

A entrada e a saída são proibidas – Proibidas a entrada e a saída de pedestre

Porém há uma outra regra de concordância nominal: se as palavra “entrada” e “saída” não apresentarem um artigo, ou uma palavra que determine o gênero delas, não há variação de gênero. Mas deve haver concordância de número nessa oração, pois o sujeito é composto:

Entrada e saída de pedestre são proibidos - Proibidos entrada e saída de pedestre

Observação. A advertência do terminal apresenta a palavra “saída” sem acento tônico. Pela regra, o “i” sozinho em uma sílaba, seguido ou não de “s”, leva acento.
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O revisor de textos e o autor



Texto de Artur da Távola:

Meus artigos de anteontem e ontem vieram de telex, enviados da Bahia. No de Gal Costa, [...] para não repetir a palavra Gal, Gal, Gal, fui colocando assim: “a prima de Marina”, “a sobrinha de Tia Vivi” etc. Tudo bem, tudo certo, são seres reais, da família da cantora, pessoas adoráveis a quem quis homenagear. Mas eis que ao me referir a uma figura formidável, a da mãe da cantora, eu coloquei a “filha da Mariá”. Mariá, com acento agudo no a final, pois assim é chamada a doce mãe de Gal.

Mas um texto que vem por telex passa por vários operadores: o do dito telex, o do copidesque, o de quem compõe a matéria, e nessas andanças todas, o acentozinho de Mariá caiu. Gal saiu como “filha de Maria”, tradicional organização católica cheia de méritos, mas à qual propriamente a cantora não pertence. O mais divertido, porém, é que o “filha de Maria” saiu numa frase em que eu falava da sensualidade da cantora. Deu um melê completo. A frase saiu assim: “Nessas declarações ela, filha de Maria, fala com o corpo uma linguagem não verbal, capaz dos mais excitantes discursos silenciosos da música popular brasileira”.

E depois de chamar a Gal de “filha de Maria” excitante, pior, mesmo, foi, ainda nesse artigo, sair grafado “catar-se em vez de “catarse”. Ora se eu ia dizer que a Elis Regina fica no palco a “catar-se”...

O Globo. 12.03.1981. In: ARAÚJO, Emanuel . A construção do livro. São Paulo: Lexikon, UNESP, 2008, p. 365.
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Xuxa ainda sofre, ou sofreu, abuso infantil?



A Xuxa deu um depoimento bombástico sobre sua infância, dizendo que sofreu abuso sexual. Bom, essa afirmação ocasionou muitas críticas positivas e negativas, sobrando até para a filha da apresentadora, Sasha.

Em uma coluna social de um site jornalístico, li uma notícia sobre as consequências desse depoimento, porém quero destacar uma frase e discutir sobre o uso do tempo verbal corretamente:

“Por outro lado, foi bom Xuxa ter afirmado que sofre abuso infantil, pois as denúncias aumentaram bastante nesta semana.”

R7, 25.05.2012.

O verbo destacado está no presente do indicativo, que, segundo as gramáticas, é um tempo que exprime um fato que ocorre no momento em que fala; indica fatos ou estados permanentes; exprime uma ação habitual. Então, ao ler essa frase, podemos entender que a apresentadora continua sofrendo abuso infantil (ela tem quase 50 anos!), pois a ação do verbo "sofrer" não terminou.

Sugiro que, nesse caso, utilize o verbo destacado no pretérito perfeito do indicativo, que indica uma ação acabada, concluída. Vejam:

“Por outro lado, foi bom Xuxa ter afirmado que sofreu abuso infantil, pois as denúncias aumentaram bastante nesta semana.”

Assim, fica claro que a Xuxa passou por momentos difíceis no passado e que hoje não passa mais, pois a ação do verbo "sofrer"  foi concluída com a conjugação no pretérito perfeito.
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A cor do batom da Tyra Banks





Vejam a notícia abaixo:

"Tyra Banks foi alvo da imprensa internacional ao prestigiar o Moth Ball, em Nova York, na noite desta terça-feira (8) usando uma maquiagem duvidosa. A apresentadora do "American's Next Top Model" acabou exagerando na sombra preta e ainda completou o visual com um batom cor de rosa."

Fonte: Quem

Não quero falar da maquiagem horrorosa de Tyra Banks, mas da última palavra do texto: cor-de-rosa. Ela é escrita com hífen e não sofreu influência da Nova Ortografia, a qual trouxe mudanças em muitas palavras compostas.

De acordo com a Nova Ortografia, somente as palavras compostas que designam espécies botânicas e zoológicas é que permanecem com hífen: bem-te-vi, erva-do-chá, cana-de-açúcar, andorinha-do-mar etc. Quem estiver fora dessa lista, ficará sem hífen: passo a passo, dia a dia etc.

Mas algumas palavras compostas, mesmo não fazendo parte da lista de espécies botânicas e zoológicas,  permanecem com hífen, pois foram consagradas pelo uso: água-de-colônia, pé-de-meia, mais-que-perfeito, cor-de-rosa etc. Isso mesmo, cor-de-rosa continua com seus dois hífens, ao contrário do que foi apresentado na revista.
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Senado quer fazer quiproquó com o acordo ortográfico




Às vésperas de regras vigorarem de forma definitiva, senadores querem revisar acordo que unificou ortografia nos países de língua portuguesa

Em dezembro deste ano, será decretado, definitivamente, o fim do trema. Nenhum qüiproquó, por mais generalizado que seja, será mais aceito com os dois pontos em cima da letra u. Nenhuma idéia, por mais esdrúxula que seja, terá acento agudo na letra e. Vôo e enjôo deixam para trás, de uma vez por todas, seus acentos circunflexos. E o alfabeto passará a ter 26 letras, ao incorporar as letras "k", "w" e "y".

As regras não são novas. Estão em vigor desde janeiro de 2009, quando o Brasil e todos os países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) - Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor Leste - assinaram o acordo ortográfico. Os brasileiros tiveram quatro anos para se adequar às novas regras. Durante esse período, tanto a grafia anterior como a nova foram aceitas oficialmente. Mas a partir de 1º de janeiro de 2013, as regras antigas deixam de ter validade e passa a vigorar, então, a nova ortografia da Língua Portuguesa – cujas normas foram organizadas pela Academia Brasileira de Letras (ABL) na quinta edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP).

No entanto, a confusão em torno do acordo ortográfico, elaborado para uniformizar a grafia das palavras dos países lusófonos, ou seja, os que têm o português como língua oficial, está longe do fim. E se depender do Senado Federal, o qüiproquó vai continuar. E carregando seu trema por muito mais tempo.

Acusação - Há um mês, os senadores Ana Amélia Lemos (PP-RS), Cristovam Buarque (PDT-DF), Cyro Miranda (PSDB-GO) e Paulo Bauer (PSDB-SC) promoveram uma audiência pública na Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado para discutir a revisão da reforma ortográfica. Também participaram do debate os professores Pasquale Cipro Neto e Ernani Pimentel, idealizador do Movimento Acordar Melhor. Ele acusa a ABL de fazer alterações no texto do acordo ortográfico após a assinatura dos países membros da CPLP.

Segundo Pimentel, a Casa de Machado de Assis teria publicado na quinta edição do VOLP normas que não foram acordadas entre os oito países. “A ABL mexeu em vários pontos do acordo sem autorização. O que está sendo implantando é ilegal. O VOLP desrespeita e altera o texto original”, acusa Pimentel.

Autoridade máxima no Brasil quando o assunto é novo acordo ortográfico, o gramático e imortal Evanildo Bechara, afirma, no entanto, que as acusações “não condizem com a verdade”. De acordo com ele, que é autor da Moderna Gramática Portuguesa, a Academia Brasileira de Letras adaptou a quinta edição do VOLP “ao que ficou acertado no texto do acordo”.

“Em 2008, estávamos com a quarta edição do VOLP esgotada. Quando partimos para a quinta edição, estava em plena efervescência a discussão sobre a implantação do novo acordo. Por isso, acreditamos aqui na Academia que havia chegado o momento de implantarmos o acordo na quinta edição do VOLP”, diz.

Audiência Pública - Autora da requisição da audiência pública, a senadora Ana Amélia passou a defender a revisão das novas regras logo depois que foi procurada por Pimentel, em dezembro do ano passado. Foi ela quem sugeriu aos colegas que a Academia Brasileira de Letras fosse convidada para ir ao Senado explicar o novo acordo ortográfico. “Eu, assim como o professor Pimentel, defendo a redução e o aperfeiçoamento do acordo. E também queremos tratar disso de forma diplomática e política”, afirma.

Bechara, responsável pela produção da quinta edição do VOLP, com as novas regras da ortografia, foi de fato convidado a participar da discussão que aconteceu no dia 4 de abril. Mas diz que não pode comparecer à reunião por estar em um congresso fora do país que se estendeu até o dia 17 de abril. Nas palavras de Ana Amélia, no entanto, ao não comparecer à audiência, a ABL “mostrou falta de vontade de debater o assunto".

Bechara disse ao site de VEJA que pediu ao Senado para que a data do encontro fosse adiada, mas que seu pedido não foi atendido. “Logo que fui chamado a compor a mesa, informei ao Senado a impossibilidade de comparecer à reunião. Apresentei duas possibilidades: de a reunião ser transferida para outra data e a outra possibilidade de marcar uma nova reunião para eu prestar esclarecimentos aos senadores”, diz.

Como a data da audiência não foi alterada, assim que voltou ao Brasil, no dia 18 de abril, Bechara enviou uma carta ao Senado colocando-se à disposição dos senadores para ir à Brasília. O gramático pretende apresentar aos parlamentares um histórico do acordo. “Vou mostrar as sem-razões das críticas. Vamos fazer o histórico do acordo, onde e em quais fatos o acordo se baseia”, afirma Bechara.

Até agora, no entanto, o Senado não enviou resposta ao imortal.

Como surgiu o acordo - As regras do novo acordo estão prontas desde 1990, quando o texto foi elaborado e aprovado pelos representantes da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Naquele ano, o que se pretendeu fazer foi um acordo que unificaria a ortografia em todos os países de língua portuguesa. Até então, Portugal se regia pelo acordo de 1945 e o Brasil, pelo de 1943.

O texto de 1990 tratou apenas das divergências entre os acordos de 1945 e o de 1943. Tudo o que era comum nos dois sistemas não entrou em discussão na redação do novo acordo. “Porque se já era comum, já estava previamente acordado entre os dois países”, justifica Bechara.

“Começaram a dizer que a Academia inovou, que a Academia fugiu do acordo. Mas a pessoa que faz a crítica não entende que o acordo de 1990 é, em 90% dos casos, uma reedição do acordo português de 1945. Por isso, nós brasileiros tivemos que abrir mão de muitos mais fatos do que os portugueses”, afirma o imortal, que ocupa a cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras.

De fato, em números, as mudanças para os brasileiros são quase insignificantes: a norma escrita teve 0,43% de suas palavras mudadas. Em Portugal, 1,42%. Até julho de 2004, era preciso que todos os países membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) ratificassem as novas normas para que elas entrassem, de fato, em vigor. Mas um acordo feito naquele ano estabeleceu que pelo menos três países ratificassem os termos da proposta, o que ocorreu somente em 2006. O Congresso brasileiro aprovou as mudanças em 1995, seguido de Cabo Verde, em fevereiro de 2006, e São Tomé e Príncipe, em dezembro daquele mesmo ano.

De acordo com a Divisão de Promoção da Língua Portuguesa do Itamaraty, dos oito países membros da CPLP, apenas Angola e Moçambique ainda não ratificaram o acordo.

Os próximos passos do Senado - Agora, os senadores se articulam para criar, nos próximos dias, um grupo de trabalho na Comissão de Educação, Cultura e Esporte da Casa para acompanhar o assunto. A proposta do senador Cristovam Buarque é que o grupo seja misto, formado por senadores e deputados. “Para nós, ficou claro que existiu pressa na implantação do acordo. E precipitação sempre dá errado. Nosso objetivo é melhorar o acordo e não impedir que ele entre em vigor”, afirma.

Um dos objetivos dos parlamentares, de acordo com o senador Paulo Bauer, é realizar uma série de reuniões para que sejam esclarecidas as confusões em torno das novas normas. “Precisamos descobrir se os problemas têm soluções, se podemos fazer mudanças sem ferir o acordo e a nossa língua. Por enquanto, as novas regras estão afrontando a língua”, diz.

Mas, de acordo com a senadora Ana Amélia, o pedido de anulação do acordo não está descartado, já que a partir do próximo ano, nos livros didáticos, vestibulares e concursos públicos as novas normas passam a ser obrigatórias. “Podemos tomar uma posição mais firme em relação ao acordo, como propor o fim do acordo ou pedir o adiamento dele, para que não entre em vigor a partir de janeiro de 2013”.

Derrubar o acordo ortográfico, ressalte-se, seria jogar dinheiro público fora. Antes de decidir se seguirá por caminho tão radical, diz Ana Amélia, o Senado quer acompanhar como está a discussão a respeito do acordo nos outros países. Durante a audiência pública, além do adiamento da implantação do acordo, foi proposta também uma nova reunião internacional, com representantes da Comunidade de Países de Língua Portuguesa para todos os pontos do novo texto sejam rediscutidos.

O desacordo em Portugal - Portugal tem até dezembro de 2014 para concluir o processo de implantação da nova grafia. Mas lá o acordo ortográfico ainda enfrenta muita resistência. Tanto que os alunos portugueses só começaram a aprender as novas regras neste ano - três anos depois de as novas regras terem sido acordadas.

Apesar de se dizer a favor do acordo, o secretário de estado da Cultura do país, o escritor Francisco José Viegas, tem defendido mudanças no texto assinado em 2009. Em recente entrevista, ele afirmou que é preciso promover pequenas alterações pontuais, “sobre o que é pronúncia culta, pronúncia corrente e a sua correspondente ortografia”.

A controvérsia sobre o acordo voltou à tona em Portugal depois que o poeta Vasco Graça Moura, ao assumir, em fevereiro, o cargo de diretor do Centro Cultural de Belém - de uma das mais importantes instituições culturais do país, determinou que fosse suspensa a aplicação do acordo ortográfico nos serviços sob sua tutela. Circula também na internet uma petição para que o parlamento português vote o fim do acordo.

Fonte: Veja online
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Complemento Nominal


No estudo da sintaxe (estudo das palavras como elementos de uma frase e suas relações), o complemento nominal é o termo que se liga a um nome (substantivo, adjetivo ou advérbio) sempre por meio de preposição.

A função do complemento nominal é completar o sentido desse nome que, na sintaxe, é um objeto, um predicativo ou um adjunto adverbial. Vejam estes exemplos:

O povo tinha respeito ao rei.
                          Substantivo  Complemento
                          (objeto direto) nominal



Este remédio é prejudicial à saúde.
                       Adjetivo     Complemento
                            (predicativo    nominal
                             do sujeito)


Agiu contrariamente ao esperado.
                  Advérbio           Complemento
                 (adjunto                   nominal
                  adverbial)

Os nomes que exigem complementos correspondem a verbos transitivos que possuem o mesmo radical. Observem:

Amor aos filhos - Amar os filhos
Respeito aos pais - Respeitar os pais
Confiança na justiça - Confiar na justiça

O complemento nominal também é representado por uma oração de valor substantivo, conhecida como oração subordinada substantiva completiva nominal:

Tinha necessidade de que o ajudasse.

Tenho medo de que me traias.

Sou favorável a que o condenem.

Como dissemos, o complemento nominal é o termo que se liga a um nome por meio de uma preposição. Na linguagem coloquial, podemos perceber que, nas orações subordinadas substantivas completivas nominais, a preposição tem sido retirada: Tenho medo que me traias. Devemos tomar cuidado, pois a norma culta ainda não determinou que se elimine a preposição destas orações subordinadas.




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Revisor tipográfico, revisor de provas... o revisor de textos


Nova Escola
Antigamente, confundiam-se as tarefas do revisor tipográfico, do preparador de originais e do filólogo, o que praticamente perdurou até a Revolução Industrial, quando, na Europa, passaram a distinguir-se as várias tarefas. Na primeira metade do século XVI, por exemplo, um célebre impressor fazia pendurar as provas pelas ruas próximas à gráfica e à universidade, oferecendo recompensa a quem descobrisse um erro.

A profissão “revisor”, tal como hoje a entendemos, i. e., revisor tipográfico, sem compromisso com o conteúdo do texto, consolidou-se apenas no século XIX, sobretudo com a multiplicação de periódicos (revistas, tabloides, almanaques etc.), a demanda dos jornais diários e a volumosa programação anual das editoras, que então iniciavam séries e séries de consumo popular.

Na realidade, toda uma gama de significados (e operações) envolve a palavra “revisão”, mas ela sempre implica uma retomada do trabalho, quer para acréscimo, corte, remanejamento, reforma etc. de conteúdo, quer para a realização de emendas na reprodução tipográfica desse trabalho e em conformidade com o disposto nele. O que se entende hoje por “revisão”, numa editora, é a pura e simples revisão tipográfica ou revisão de provas (a revisão do original, sua normalização ortográfica e tipográfica correm por conta do editor de texto), tarefa aliás deveras importante, apesar de mal paga e, por isso, muitas vezes deixada, pelo menos nas condições do Brasil, ao cargo de recém-formados ou até de estagiários dos cursos universitários destinados a produzir jornalistas. Ora, tecnicamente a revisão consiste no acurado cotejo do original com as provas compostas, ainda sem paginar ou já paginadas.

Erros ortográficos e gramaticais, linhas fora do lugar, salto de palavras ou trechos inteiros, letras defeituosas, alterações involuntárias de fonte e estilo, defeitos no entrelinhamento ou na mancha são algumas das preocupações que o revisor de provas deve ter em seu trabalho. As revisões gráficas são feitas quantas vezes forem necessárias, usando-se sinais convencionais universais, que são escritos nas margens das folhas.

Por sua própria função, constitui rematada tolice subestimar o revisor. Dele se exige algo mais que simples alfabetização (muitos jornais e editoras parecem contentar-se com isso); na realidade, requer-se um bom conhecimento normativo da língua, extrema capacidade de concentração, perícia suficiente para distinguir as principais famílias e fontes de tipos, perfeito domínio da maior quantidade possível dos signos com os quais assinala, nas provas, aquilo que discrepa do original, além de razoável cultura geral para não cometer, ele mesmo, determinados erros (por exemplo, mandar substituir “mercedários” por “mercenários”; românico” por “romântico” e assim por diante).

Dadas as subcondições de trabalho destinadas no Brasil ao revisor, sejamos justos: ele convive com seu eterno fantasma, o erro, faz o que pode e quase sempre fá-lo bem.

ARAÚJO, Emanuel. A construção do livro. São Paulo: Lexikon, UNESP, 2008, pp. 363-364. Adaptado por Marcia Moreira.
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Sobre gramáticos e revisores


Os gramáticos são entidades dotadas de um grande poder. Eles têm o poder para baixar leis sobre como as palavras devem ser escritas e sobre como elas devem ser ajuntadas. Seu poder vai ao ponto de poderem estabelecer que uma certa palavra existe ou que tal palavra não existe. Quando a dita palavra aparece num texto, eles a desrealizam por meio de uma palavra latina, "deleatur", afirmando que se trata de um simples fantasma. Foi o que aconteceu com a palavra "estória". Atreva-se a escrevê-la! Os "revisores", policiais da língua que cumprem as ordens dos gramáticos, logo a transformam em "história", assumindo que o escritor a escreveu por ignorar que ela foi a óbito.

Os revisores são seres obedientes: cumprem e fazem cumprir as leis ditadas pelos gramáticos. Saramago descreve a sua condição como seres "atados de pés e mãos por um conjunto de proibições mais severas que um código penal". Olhos de falcão, têm de estar atentos aos mínimos detalhes. Sua concentração nos detalhes é de tal ordem que, por vezes, o sentido do texto, aquilo que o escritor está dizendo, lhes escapa.

Aconteceu comigo. Escrevi um livro -"O poeta, o Guerreiro, o Profeta". O argumento se construía precisamente sobre a diferença entre "estória" e "história". Num capítulo era "estória". No outro, era "história". Se ele, o revisor, tivesse prestado atenção naquilo que eu estava dizendo, ele teria notado que o aparecimento alternativo de "estória" e "história" não podia ser acidental. Mas ele, obediente às leis dos gramáticos, transformou todos os "estórias" em "história", tornando o meu livro gramaticalmente correto e literariamente "nonsense".

Noutra ocasião, o revisor enquadrou na reforma ortográfica uma fala do Riobaldo, que eu citava. Ficou divertido ler Riobaldo, jagunço de muitas mortes, contando seus casos com fala de professora primária.

Saramago tem medo dos revisores. Não permite que eles metam o bedelho nos seus livros para enquadrá-los às regras da gramática. Desprezando vírgulas e pontos ele vai em frente consciente de que seus leitores são suficientemente inteligentes para colocar as vírgulas e os pontos nos lugares em que sua respiração e o sentido determinarem.

Mas o escritor português sabe que os revisores são pessoas que sofrem. Deve ser terrível viver o tempo todo sob a tirania das leis dos gramáticos e sob a tirania do texto do autor a que eles têm de se submeter, sem dar sua contribuição pessoal. Afinal de contas o revisor não gosta de ser revisor. Ele queria mesmo era ser escritor.

Compadecido do sofrimento dos revisores, Saramago escreveu o livro "História do Cerco de Lisboa". Pois nesse caso o revisor do dito livro que, se não me engano, se chamava Raimundo Silva, se rebelou contra o seu destino e resolveu fazer história. No lugar onde o autor escrevera que os portugueses foram ajudados pelos cruzados, Raimundo Silva inseriu um "não" entre os "portugueses" e o "foram", e texto ficou "e os portugueses não foram ajudados pelos cruzados...".

Assim, contrariamente ao que já disse, fico a pensar que talvez o poder dos revisores seja maior que o poder de uma única palavra, eles podem mudar o mundo ou arruinar um livro...

Rubem Alves
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