31 de maio de 2012

Honoré de Balzac, o horror dos copidesques



“A sua maneira de proceder” – depõe Gautier – “era esta: quando tinha longamente trazido consigo e vivido um assunto, numa escrita rápida, trôpega, contundida, quase hieroglífica, traçava uma espécie de cenário nalgumas páginas que mandava à tipografia, de onde voltavam tiras, isto é, colunas isoladas no meio de folhas largas. Lia atentamente essas tiras, que já davam a seu embrião de obra esse caráter impessoal que o manuscrito não tem, e aplicava àquele esboço a alta faculdade crítica que possuía, com se se tratasse da obra de outro. Assim operava sobre alguma coisa; aprovando ou desaprovando a si mesmo, mantinha ou corrigia, mas principalmente acrescentava. Linhas que partiam do começo, do meio ou do fim das frases dirigiam-se às margens, à direita, à esquerda, no alto, embaixo, conduzindo a desenvolvimentos, a intercalações, a incisos, a epítetos, a advérbios. Ao cabo de algumas horas de trabalho dir-se-ia um ramo de um fogo de artifício desenhado por uma criança.”

René Benjamim, por seu lado, compara a prova corrigida por Balzac a uma “teia de aranha humana, irregular, tecendo em todas as direções, segundo os golpes do gênio, que formava uma rede inextricável em que a mosca-tipógrafo devia morrer de esgotamento”.

Por infelicidade de Balzac, ainda não fora inventada a máquina de escrever, que, sem esta necessidade permanente de recorrer à custosa colaboração da tipografia, teria dado aos trechos corrigidos o ‘caráter impessoal’ de que fala Gautier. “De Pierette houve treze provas sucessivas; quer isto dizer que foi feita treze vezes; de César Birotteau, dezessete” – relata ele mesmo. E esse trabalho recomeçava antes de cada reedição, nunca igual à edição precedente.

[...] Também, Balzac era o terror dos tipógrafos e dos editores; dos primeiros, por estarem as suas inúmeras correções escritas em letra miúda e confusa, quase ilegíveis; dos segundos, porque as recomposições contínuas aumentavam extremamente o custo dos livros. Nessas condições , cada obra impressa de Balzac representa verdadeiro milagre, soma dos esforços sobre-humanos do escritor e do operário.

RONAI, Paulo. A vida de Balzac. In: BALZAC, Honoré de. A comédia humana. Porto Alegre: Globo, 1959. In: ARAÚJO, Emanuel . A construção do livro. São Paulo: Lexikon, UNESP, 2008.

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