8 de julho de 2011

A experiência "grafemática" em revisão de textos de Guimarães Rosa por Antônio Houaiss



Eu vi o que foi a proeza de editar Guimarães Rosa: desde Sagarana, e daí para diante cada vez mais obsessivametne, os textos eram respeitados passivamente pelo impressor tal como estavam. O revisor timidadente perguntava a ele, às vezes, se esss Z era assim mesmo (porque ele trocava S por Z) ou se esse J por G deveria permanecer. Geralmente, ele dava um sorrisinho e dizia: "Pode corrigir".

No plano estritamete ortográfico dessas celebérrimas heterografias homofônicas - isto é, o mesmo som escrito com letras diferentes - em geral Gumarães Rosa concordava com as correções, porque não era bom ortógrafo. Mas, de repente, arrrepiava-se com uma palavra que, pela norma, não devia ter acento nenhum, mas a ele parecia que sim. Achava que aquele acento estava com função não apenas indicativa do timbre que a vogal devia ter. Achava até que o cinrcunflexo, o acento agudo, ou o acento grave entravam nbo ritmo visual da linha do próprio texto. Para ele foi uma grande revelação o dia em que lhe disse: você está com muitas preocupações grafemáticas. Gostou da palavra, sentiu que era exatamente isso: tinha uma vivência grafemática das palavras.
Fonte: A construção do livro, 2008, p. 61.

2 comentários:

Profº Bauru disse...

Márcia, fico imaginando o trabalho que deve dar traduzir para outras línguas. Se é difícil pensar na linguagem coloquial, imagine os neologismos. Não conhecia seu blog ainda e estou adorando fuçar por aqui. Grande abraço e bom final de semana.

Anônimo disse...

Professora Marcia.
Professor Bauru, obrigada pela visita. Um grande abraço pra você também.