2 de dezembro de 2010

Oportunidades no mercado de tradução literária




Entre os nativos e aqueles que a utilizam como segunda língua, perto de 270 milhões de indivíduos no mundo falam o português. Os falantes do mandarim estão no topo dos idiomas mais falados (1,7 bilhões), vindo depois o inglês, com 1,375 bilhões (375 milhões nativos, mais um bilhão de outros), seguido do hindi e do espanhol, com seus 511 milhões (406 nativos, mais 105 de outros). Dados de 2010, fornecidos apela Internet World Stats, mostram que na Internet o inglês continua mantendo a dianteira, com 42% de penetração. Todavia, parece que esse quadro não permanecerá por muito tempo.

De 2000 a 2010 a língua inglesa teve um crescimento de usabilidade na Web de 281%, porém, o espanhol teve 741% de crescimento, o português 989%, sem falar, é claro, do mandarim, que cresceu no mesmo período 1.270%. Nada mal para um planeta que já chega a ter perto dos 2 bilhões de usuários na Internet, que já ultrapassou o número de 125 milhões de blogs online, e onde o YouTube, por exemplo, descarrega a cada 60 segundos 24 horas de vídeo. Nesse cenário, o crescimento do idioma português gera forte demanda por tradutores, intérpretes, revisores e pelos demais profissionais que de alguma forma atuam nessa área. A tradução literária está na pauta emergencial do Brasil e de quase todos os grandes países.

Nos últimos 20 anos, o mercado editorial brasileiro cresceu muito, e segundo o SNEL (Sindicato Nacional dos Editores de Livros), mais de 70% das obras são traduções. Só na área de informática, por exemplo, onde o Brasil é um dos maiores consumidores de produtos (só perde para os EUA, Japão, Canadá e Alemanha), a demanda de tradução continua alta (incrementada pela chamada “localização”, quando é necessário customizar o texto às condições locais). Ainda que as ferramentas de tradução online se multipliquem (só alcançam hoje algum resultado na literatura técnica), é difícil imaginar que o profissional de tradução possa não ter seu futuro garantido.

O Brasil já está entre os dez países que mais produzem livros no mundo, sendo responsável por cerca de 50% de todas as obras editadas no continente. Embora a crise econômica de 2008 tenha maculado diretamente o mercado editorial mundial, a tendência é de recuperação na próxima década, principalmente com a expansão do mercado digital. Se no Brasil a demanda cresce de fora para dentro, com a entrada crescente de títulos estrangeiros, é preciso que cresça de dentro para fora (rápido). As “correntes sanguíneas” das obras produzidas em idioma luso, ainda hoje acanhadas, dão sinais de significativa expansão nos próximos anos.

No Brasil, eventos diretos (Feira de Frankfurt, a maior vitrine editorial do mundo, que homenageia o país em 2013), e indiretos (Copa do Mundo, Olimpíadas, etc.) também turbinam o interesse por nossa literatura, carregando na boléia a necessidade de profissionais de tradução para curto e médio prazo (no longo prazo – duas décadas – só os deuses sabem). Sem falar na tendência mundial de reeditar clássicos a partir de seus idiomas originais, seja por questões de direitos autorais ou pelo interesse dos leitores que valorizam as traduções baseadas na língua-mãe do autor. Sempre é bom lembrar que, embora a qualidade das traduções nacionais tenha melhorado muito nos últimos anos, ainda existe um gap qualitativo alto quando a língua original está no grupo das “pouco difundidas”.

Assim, o mercado demanda tradutores, bons tradutores. Na literatura técnica, os softwares de tradução estão chegando e talvez possam até ajudar, mas na prosa, poesia, nos ensaios, na literatura romanesca, o tradutor é insubstituível. A nova demanda tem consequência imediata, por exemplo, na formação oferecida aos tradutores e especialistas em diversas culturas menos difundidas. O tradutor Marco Sirayama de Pinto, professor da USP, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, explicou que a tradução dos primeiros romances turcos modernos, vertidos no Brasil diretamente da língua original como “As preces são imutáveis” (2010), de Tuna Kiremitçi, e, “A palavra perdida” (2011), de Oya Baydar (ainda não disponível), ambos traduzidos por ele, foi uma dificuldade: “As estruturas das duas línguas são completamente diferentes”. Mas o caminho é irreversível para esse idioma. O Nobel de 2006 ofertado ao turco Orhan Pamuk, por exemplo, só fez crescer o interesse por sua obra e pela cultura de seu país, sendo que no Brasil seus livros foram vertidos indiretamente, do inglês ou do francês, pela dificuldade de se encontrar tradutores.

A formação de um bom tradutor não é algo simples ou rápido, pelo contrário, alcançar experiência e credibilidade nesse mercado pode demorar uma década, mas a boa notícia é que a demanda é crescente e estável, principalmente no que se refere à literatura não-técnica. O tradutor é parte integrante da obra (chega a ser co-autor) e é uma ponte segura para suas chances de sucesso. Há alguns anos podíamos dizer que os profissionais da tradução literária não eram tradutores, mas estavam tradutores, pois faziam desse trabalho um apêndice de sua vida laboral. Embora isso ainda aconteça, é cada vez maior o número de profissionais dedicados à tradução, para honra e glória da literatura universal.

Fonte: Blog da Cultura



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