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2 de outubro de 2012

Frase, gramaticalidade e inteligibilidade



Dentro da liberdade de combinações que é própria da fala ou discurso – liberdade que permite a cada qual expressar seu pensamento de maneira pessoal, sem ter de repetir sempre, servilmente, frases já feitas, já estereotipadas – há certos limites impostos pela gramática, limites que impedem a invenção de uma nova língua cada vez que se fala.

Nossa liberdade de construir frases está, assim, condicionada a um mínimo de gramaticalidade – que não significa apenas nem necessariamente correção (há frases que, apesar de, até certo ponto, incorretas, são plenamente inteligíveis). Carentes da articulação sintática necessária, as palavras se atropelam, não fazem sentido – e, quando não há nenhum sentido possível, não há frase, mas apenas um ajuntamento de palavras.

GARCIA, Othon Moacyr. Comunicação em prosa moderna. São Paulo: Editora FGV, 2010.

18 de agosto de 2011

Iniciais maiúsculas: como eram antigamente




A questão do emprego das maiúsculas jamais deixou de atormentar os preparadores de originais de língua portuguesa. E o problema não é novo. Ele aparece, a bem dizer, com o próprio desenvolvimento da escrita e seus desdobramentos (e dificuldades). Vale a pena assinalar que pelo menos há mais de quatro mil anos os egípcios sentiram a necessidade de utilizar o que hoje chamamos de destaque ou efeito de realce. Tal se dava, então, de três modos diferentes:

1) Grande número de sinais (cerca de duzentos, corretamente em torno de oitenta) não era lido, mas servia para distinguir palavras homófonas e nomes próprios, chamando a atenção para um vocábulo importante na frase. Os egiptólogos denominaram esses sinais de ‘determinativos’.

2) Os nomes reais eram envolvidos em um círculo oval – os cartuchos -, o que indicava, além da reverência ao faraó-divindade, uma distinção, ainda que restrita, entre nomes próprios e comuns.

3) Finalmente, estabeleceram um princípio de normalização que durou até os primeiros tempos da imprensa (...): o uso de rubricas, i.e., empregava-se tinta vermelha para obter o efeito de realce, por exemplo, em datas, medidas de peso e, sobretudo, em textos literários, nas aberturas de seções e em determinadas palavras iniciais.

Fonte: A construção do livro, 2008, p. 78.

29 de novembro de 2010

Dissertação - parte 3


Cuidados ao fazer uma dissertação

Nas minhas útimas postagens que escrevi sobre dissertação, falei de seus modelos e sua estrutura e maneira certa de organizar as ideias. Observe, agora, alguns cuidados que devemos ter ao redigirmos uma dissertação:
Leia atentamente o tema, procurando entender perfeitamente o que é pedido; 
  • Reflita sobre o tema, procurando analisar o ponto de vista assumido, sua forma e variantes;
  • Em cada parágrafo, procure elaborar de dois a três períodos (orações). Não faça-os longos, nem curtos demais. Também não redija um parágrafo muito longo, nem curto.
  • Tenha o hábito de ler bons livros, jornais e revistas; assim, conseguirá argumentos e ideias para sua dissertação;
  • Delimite o assunto, isto é, através de um tema aberto, procure restringi-lo a um de seus aspectos, tornando-o um tema fechado, restrito. Por exemplo, o tema de uma dissertação é a televisão; você pode restringi-lo a um assunto dentro deste tema, como: a influência da televisão nos dias de hoje, a influência da televisão com o passar dos tempos, as mudanças de hábitos ao assistirem a televisão dentre outros;
  • Planeje a elaboração de cada etapa da estrutura dissertativa (Introdução, Desenvolvimento e Conclusão);
  • Faça um esboço, um rascunho inicial.
  • Procure redigir sempre na terceira pessoa do singular (ele/ela) ou, ainda, na primeira pessoa do plural (nós) para tornar o texto mais impessoal.
  • Evite expressões do tipo: “Na minha opinião...”, “Eu penso que...”, “Eu acho que...” dentre outros.
  • Não use gírias e expressões que só aparecem na nossa oralidade. Caso seja necessário, coloque-as entre aspas (“ “).
  • Se for colocar algum exemplo, só use apenas os que saíram na mídia: jornais, revistas dentre outros.
  • Não use “etc.”, nem reticências (...); prefira as expressões “dentre outros”, “entre outros”;
  • Mantenha sempre objetividade e clareza na abordagem do tema. Não use expressões difíceis, prefira as mais usuais do dia a dia.
  • É importante que sejam apresentados e discutidos fatos, dados e pontos de vista acerca do tema proposto.
  • Evite frases feitas, pois empobrecem o texto, demonstrando a ausência de originalidade, a falta de imaginação e de bom gosto. Por exemplo: “caixinha de surpresas”, “encerrar com chave de ouro”, “nos primórdios da humanidade” dentre outros.
  • Não utilize provérbios ou ditos populares;
  • Nunca se inclua em uma dissertação;
  • Não faça repetição de palavras ou expressões; use sinônimos.
  • Não propague doutrinas religiosas;
  • Não use abreviações.
  • Não fuja ao tema proposto;
  • Quando for usar alguma palavra estrangeira, deixe-a entre aspas;
  • Ao separar as sílabas, não deixe apenas uma vogal iniciando ou terminando uma linha, evitando, também, a cacofonia (som desagradável).
  • Como elementos referenciais, podemos usar os pronomes: pessoais, possessivos, demonstrativos, indefinidos; apostos; hiperônimos (palavras de ideias gerais: “instrumentos”, ferramentas”); hipônimos (palavras de ideias restritas: “violão”; “martelo”); perífrases (“a Cidade Maravilhosa”, substituindo “Rio de Janeiro); antonomásias (“Poeta dos Escravos”, substituindo “Castro Alves”) entre outros.

8 de outubro de 2010

Dissertação - parte 2

Plano de dissertação

Em todo texto, é preciso organizar as palavras, as ideias, tudo isso dentro de parágrafos. Para isso, faz-se necessário cumprir dois passos de suma importância para que você tenha êxito em seu texto dissertativo.

1. Primeiro passo – Levantar as ideias

Esta primeira fase é fundamental para a execução do trabalho. Muitas ideias talvez nem sejam utilizadas depois; outras talvez surjam mais adiante.

Imagine que você recebeu, como proposta de redação, o seguinte tema: “Poluição dos rios”. Veja como é feito um possível levantamento de ideias sobre este tema:

Levantamento de ideias sobre o tema “Poluição dos rios”

- Morte de vários peixes;
- Desequilíbrio na flora e na fauna aquática;
- Indústrias despejam poluentes nas águas;
- Na Inglaterra, foi recuperado um rio totalmente poluído, o Tâmisa;
- Nenhum controle por parte das autoridades responsáveis;
- Poluição da água que bebemos;
- Detergentes biodegradáveis.

Estas são apenas algumas ideias que podemos ter sobre o tema, e também temos a possibilidade de encontrar mais algumas, como já foi dito.

2. Segundo passo – Organizar as ideias

Feito o primeiro passo, agora é só organizar as ideias em parágrafos. Vimos, na primeira postagem, que a dissertação é dividida em Introdução, Desenvolvimento e Conclusão. É aconselhável que se faça, primeiro, os parágrafos de Desenvolvimento, para que sejam organizadas todas as ideias encontradas; e, depois, a Introdução e a Conclusão.

No caso do tema proposto (“Poluição dos rios”), podemos fazer uma dissertação com o esboço de dissertação sobre Causa e Consequência. Assim, organizamos as ideias da seguinte maneira:

Título

Primeiro parágrafo - Introdução - Apresentação do tema

Segundo parágrafo - Desenvolvimento 1 - Apresentação da Causa do problema

Terceiro parágrafo - Desenvolvimento 2 - Apresentação das Consequências do problema

Quarto parágrafo - Desenvolvimento 3 - Apresentação da Solução do problema

Quinto parágrafo - Conclusão - Expressão inicial (“Contudo”; “Portanto”; “De fato”)
+ reafirmação do tema + observação final

Através deste esboço, vamos organizar as ideias apresentadas sobre o tema “Poluição dos rios”:

- Morte de vários peixes - Consequência
- Desequilíbrio na flora e na fauna aquática - Consequência
- Indústrias despejam poluentes nas águas - Causa
- Na Inglaterra, foi recuperado um rio totalmente poluído, o Tâmisa - Solução
- Nenhum controle por parte das autoridades responsáveis - Causa
- Poluição da água que bebemos - Consequência
- Detergentes biodegradáveis - Solução

Feita esta divisão, agora é só organizar tudo em um rascunho para, depois, passar a limpo novamente, com todos os parágrafos organizados por você.

De acordo com um determinado tema, e com o levantamento de ideias posteriormente, também podemos organizar uma dissertação com outras estruturas:

Esquema Argumentativo. É o mais usado na maioria das dissertações.

Título

Primeiro parágrafo - Introdução - Apresentação do Tema
 (argumento 1 + argumento 2 + argumento 3)

Segundo parágrafo - Desenvolvimento 1 - Desenvolvimento do argumento 1

Terceiro parágrafo - Desenvolvimento 2 - Desenvolvimento do argumento 2

Quarto parágrafo - Desenvolvimento 3 - Desenvolvimento do argumento 3

Quinto parágrafo - Conclusão - Expressão inicial + reafirmação do tema + observação final

Esquema Argumentativo – favoráveis e contrários. Este esquema é mais utilizado quando o tema divide opiniões de tal modo que dificilmente podemos chegar a um posicionamento capaz de satisfazer a grande maioria das pessoas.


Título

Primeiro parágrafo - Introdução - Apresentação do tema
 (argumentos favoráveis + argumentos contrários)

Segundo parágrafo - Desenvolvimento 1 - Análise dos argumentos favoráveis

Terceiro parágrafo - Desenvolvimento 2 - Análise dos argumentos contrários

Quarto parágrafo - Conclusão - Expressão inicial + posicionamento pessoal em relação ao tema
+ observação final

27 de agosto de 2010

Dissertação - parte 1


Fazer uma boa redação sempre é um desafio para os alunos. Não aprendemos da noite para o dia a colocar no papel todas as nossas ideias; é com muita prática e disciplina que vamos conseguir nos expressar de forma concisa e coesa.

Dissertação é o modelo de redação mais pedido. Dissertar é expor ideias, apresentar juízo; é argumentar assumindo ou não uma posição em relação ao assunto.

Uma dissertação não precisa de muitos parágrafos com um grande número de palavras. Observe, agora, como é uma estrutura de dissertação:

a) Introdução - É a apresentação, através de um parágrafo, do assunto a ser desenvolvido; é a tese, a ideia inicial, sem muitas explicações.

b) Desenvolvimento - Elaboração discursiva da Introdução. É a justificativa da ideia inicial, com apresentação de mais detalhes, exemplos, citações. Deve ter, no máximo, três parágrafos.

c) Conclusão – Retomada da ideia inicial, com a apresentação de um resumo do que foi exposto ou argumentado no Desenvolvimento. Iniciamos a conclusão com expressões como: “Portanto...”, “Concluímos, então, que...”, “Em suma...” etc.

Dependendo do tema proposto, o aluno poderá escolher um destes dois modelos de dissertação:

1. Dissertação Argumentativa – Aquela que apresenta uma abordagem crítica sobre determinado assunto. É a defesa do ponto de vista de quem escreve. O autor quer provar a veracidade ou falsidade das ideias expostas, pretendendo convencer o leitor.

2. Dissertação Causa e Consequência – É quando o tema apresenta uma afirmação que possibilite facilmente a verificação de uma causa, consequência, com as possíveis soluções.

30 de julho de 2010

Por outro lado

Quando Arquimedes notou que podia flutuar numa banheira e saiu nu gritando “eureka”, ele havia acabado de descobrir uma lei da física. Quando Newton recebeu a mação no nariz, ele deve ter sentido coisa parecida: acabava de descobrir a Lei da Gravidade.

A alegria que Arquimedes e Newton sentiram não se compara com a exaltação do primeiro redator que, no início da modernização dos textos de jornal, descobriu a fórmula para unir o lead ao sublead.

Para quem não está por dentro dessas murmunhas da redação, convém explicar. O jornalismo dito moderno, que chegou ao Brasil no final dos anos 40, estabelecia que a matéria deveria começar pelo mais importante e pela maior novidade. Era o lead, o parágrafo que lidera o texto. Logo depois devia vir o sublead, ou seja, o assunto que em importância ou novidade merece vir logo depois do lead.

Até aqui, tudo bem. O diabo era unir os dois parágrafos, geralmente de quatro ou cinco linhas. No restante do texto, aqueles assuntos voltariam, o destaque era apenas para prender o leitor, interessá-lo com a importância ou a novidade da notícia. Até que o Arquimedes de plantão, o Newton do copidesque descobriu a fórmula “por outro lado”.

Nesse outro lado, cabiam as coisas mais disparatadas. Exemplo: “O ministro da Saúde proibiu a venda das vacinas compradas na Bolívia que estão matando as criancinhas do Nordeste. Por outro lado, o playboy Jorginho Guinle recebeu telegrama de Frank Sinatra cumprimentando-o pelo seu aniversário”.

Pronto. Estava feito o mais difícil da matéria. Desse momento em diante, o “por outro lado” saiu das redações e começou a ser usado por presidentes, economistas, técnicos em problemas afro-asiáticos, donas de casa que dão aulas de culinária. Quando fui editor de jornal e recebia textos com essa expressão, chamava o redator e dizia: “Olha, é por esse lado mesmo”.

CONY, Carlos Heitor. Folha de São Paulo. 28.1.1997